De balde cheio, vinha descendo a rua quando passei por um orelhão e vi uma moça que esperava alguém atender sua ligação. Antes mesmo de ouvir um “alô” do outro lado da linha, a infeliz já apresentava sinais de desidratação de tanto chorar. Se aquela blusa fosse torcida, seria capaz de apagar um incêndio de pequenas proporções.

(Uma deliciosa cabeça de bagre pronta para o consumo. Crédito: Aquaman)
Imediatamente parei, fulminei a referida com um olhar de reprovação e perguntei o motivo daquela perturbação da ordem pública. Ela disse, então, tratar-se de um namorado que não mais respondia suas ligações.
“Garota, eu não derramei uma lágrima sequer quando observei um incêndio consumir minha casa e abreviar a vida de minhas oito chinchilas. Trate de se controlar.” Inútil dizer que isso só a fez abrir ainda mais o berreiro. Então eu disse: “Vou lhe dar um motivo para chorar de verdade”. Arranquei-lhe o telefone da mão, bati violentamente no gancho e terminei por vê-la, em estado de absoluto estarrecimento, rolando rua abaixo abraçada a uma das minhas cabeças de bagre como se fosse a chave para a salvação da sua vida.
“Oras, mas que crueldade gratuita, que sadismo desmedido, Braddock”, devem pensar os leitores menos esclarecidos. Nada disso! Trata-se de uma atitude absolutamente sensata e justificada. Afinal, sou um homem que se mantém fiel às suas promessas.
Explico: nos idos de 1973, quando morava no interior, como celebridade (por aqueles lados, bastava saber ler o próprio nome e dividir por 2 para ser uma celebridade), fui convidado para julgar um concurso de beleza de porcos-da-Índia. Ah, vocês não sabem como os nervos afloram quando o assunto é a beleza dos porcos-da-Índia.

(Aí está Rupert, o porquinho-da-Índia, sendo treinado para a prova de talentos do concurso. Crédito: um labrador sarnento)
Não passarei por cada um dos excruciantes detalhes dos 23 dias de competição e pularei direto para o final da história, a hora do anúncio dos resultados. As donas das pobres criaturas, horas antes de começar a cerimônia, já se punham a chorar de maneira carpideira. Oras, os senhores conseguem imaginar algo mais desnecessário e irritante? Não, nem mesmo gastar R$ 500 em um corte de cabelo é tão ridículo! Por isso mesmo não poderia ter deixado aquilo passar em branco. Desde aquele maldito dia, fiz o juramento de que nunca mais deixaria alguém chorando sem um devido e merecido motivo.
Pois bem, essa é a história. Agora sumam daqui, mas não sem antes dar uma topada com o dedão em um móvel pontiagudo. E não ousem derramar uma lágrima!
> Minha autobiografia não autorizada